A pedido do Pablo... Postando pra ele mais um de seus textos maravilhosos!
Pablo... Obrigada por estar sempre presente na minha vida... Uma grande amizade, um amigo inexplicável. Unidos por simples palavras! Te Amo!
PARA F.K - Fragmentos de Caio Fernando Abreu
(Texto adaptado por Pablo Damian)
ELA - Sri Lanka, quem sabe? Você pode catalogar espécies de animais e plantas exóticas e mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka? Que cara louco esse, hein! E morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade: e você em Sri Lanka. Quanto a mim,fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, em plena ressaca. Um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá. Um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego, para poder pagar essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.
DAMA - A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Eu fico sempre do lado de fora, louca de vontade de estar lá. Tá me entendendo, garotão? Nada, você não entende nada. Dama da noite; todos me chamam e nem sabem o por que.
ELA - Claro, tentamos tudo! Inclusive trepar, porque tantas coincidências e histórias em comum, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas o que foi que aconteceu?
E eu não queria aceitar que fosse isso, sabe? Éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados. Mas no final das contas...
Cultura demais mata o corpo da gente, cara. Filmes demais, livros demais, palavras demais.
DAMA - Pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto, sem marca nenhuma. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro,tem tesão por tudo, até por fechadura. Mas anota aí pro teu futuro: essa sede, ninguém mata. Você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, boy.
ELA - Não que fosse amor de menos, muito pelo contrário. O que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher. Não se erice, queridinho, não tenho nada contra veado. Não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral. Não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, afinal você naquele tempo ainda não tinha se decidido a dar a bunda, nem eu a lamber boceta.
DAMA - Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Não me venha com aquela história: tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Capão da Canoa, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Nativo de Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Você nem viu nada ainda, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho. Comeu a bundinha, deu o cuzinho, pronto: paranóia total. Nem beijar na boca você beija. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos.
ELA - Ando angustiada demais, meu amigo. Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso. Já li tudo, cara. Já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia. Sobrou só esse nó no peito. Agora o que eu faço? Não me venhas com autoconhecimentos-redentores. Já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas. Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti. Eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando: perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança. Enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo: reage, companheira, reage. As pessoas a tua volta precisam do teu potencial criativo, da tua lucidez libertária. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, as noites não terminavam nunca, mas eu reagi, despirei, voltei a ser isso que chamam de normal. E cadê a lucidez libertária? Cadê o potencial criativo?
DAMA - Dama da noite, eles falam, eu sei. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: não sabe nada, fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você do que de mim. Eu tive uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. Sabe quando vai dar? Pra você, nem isso. Eu tive a ilusão, mas você chegou depois que mataram a minha ilusão. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Ô boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim. Eu sou curtida, meu bem. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais.
Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho castanho me olhando assim. Eu sei que marco você, marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo,você vai lembrar uma vez conheceu uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo e na solidão.
ELA - Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar. Não estou desesperada. Não mais do que sempre estive. Não estou bêbada, nem louca, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída. Não se preocupe,não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar. Tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?
Eu tive tanto amor um dia. Não me deixaram ser a coisa boa que eu era.
(Chopin – Ângela “Amor meu grande amor”)
DAMA - Acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara! Aquele que eu espero, vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você. Pra ele. Pra ele eu me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.
ELA - Não esqueça então de mandar um cartão de Sri Lanka. Que você consiga catalogar anfíbios raros e que te aconteça alguma coisa bem bonita. Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê. Como aquela fé que a gente teve um dia. Me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo de novo. Não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. Mas tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo certo. E eu continuarei repetindo todas as manhãs: que seja doce. Mas se alguém me perguntar o que deve ser doce, talvez eu não saiba responder.
DAMA - Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui continua tudo certo. Faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia. Mas tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo certo. E eu continuarei repetindo todas as manhãs: que seja doce. Mas se alguém me perguntar o que deve ser doce, talvez eu não saiba responder.
domingo, 1 de junho de 2008
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