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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Suícidio Literário


Se eu pudesse, eu mergulharia no mar, sem voltar.
Me entregaria ao seu barulho, ao seu gosto, ao seu cheiro.
Me entregaria a sua calma, a sua turbulência.
Se eu pudesse, mergulharia no mar, sem voltar.
O que me falta é coragem.
O que me impede são dúvidas.
Ando cansado de tudo.
Dos meus livros, das minhas músicas.
Das pessoas, da cidade.
Queria ser um ET.
Ou melhor, eu e o mar.
Eu e o mar, como uma dupla inseparável.
Um indispensável ao outro.
Eternamente. Até meu último suspiro.
Morri, mas amanhã... eu ressusito.
E o mar, cntinuará indo e vindo.
Levando e trazendo.
Encantando suícidas covardes.
Assim como eu.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Foi a Bruu que escreveu..
Amiga pra todas as horas e texto..
Ahhh.. texto mais que perfeito!
Te Amo Bruu


Nem me lembro como foi
Só me lembro que eu me diverti
E agora o que vem depois
Não importa o que eu já vivi

Mas tudo bem se nada dura pra sempre
Mas tudo bem, tudo sempre melhora
Se na verdade demos tudo da gente
O nosso amor não foi da boca pra fora

Minha amnésia preciosa
Te esqueci tão fácil
Te arranquei da minha vida
Minha ferida

Não vou pagar pra ver um filme
Que eu já assisti
Eu quero um beijo novo
De alguém que eu nunca vi

Ter uma história pra contar
Ter uma outra pra escrever
No coração ficou a marca
Do que eu tenho pra dizer

Mas tudo bem se nada dura pra sempre
Mas tudo bem, tudo sempre melhora
Se na verdade demos tudo da gente
O nosso amor não foi da boca pra fora

Mas tudo bem se nada dura pra sempre
Mas tudo bem, tudo sempre melhora
Se na verdade demos tudo da gente
O nosso amor não foi da boca pra fora

terça-feira, 8 de julho de 2008

Quem nunca sentiu saudade?





Quem nunca sentiu saudades?

Feche os olhos...

O que vem na sua mente?

Aquela brincadeira de criança, o ursinho, a boneca e o carrinho...

O abraço apertado e aconchegante da mãe...

Os doces que a vovó fazia sem ao menos pedirmos...

O que vem na sua mente?

Os amiguinhos do colégio que não tinham interesse nenhum em ser melhor,

A primeira professora

O primeiro 10!

O que vem na sua mente?

A árvore de Natal toda enfeitada,

Os presentes...

Sabe o que é isso? Lembranças!!!

O primeiro namorado,

Os melhores amigos...

As brigas e caminhadas

Os sorrisos sem nenhuma palavra...

Boas lembranças!

Quem nunca sentiu vontade de voltar atrás e relembrar?

Quem nunca quis sumir e começar do zero?

Trazer um pouquinho do passado pro presente

E se sentir mais firme, confiante e em casa...

Casa...

Abra os olhos...

O que vê hoje é o que veio construindo nesse tempo

Está feliz? Parabéns!

Decepcionado? Não se lamente.. Recomece!

Pode ser tarde demais pra voltar a trás

Mas é o momento certo de ter um novo caminho...

Quem nunca sentiu saudades?

Saudades são lembranças que doem mais do que deviam

De pessoas, emoções e momentos que passaram

E nos deixaram com um pedacinho de aprendizado.

Faz bem sentir saudade,

É a prova de se estar vivo!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Desejo...

...E aquela dúvida permanece na mente. A questão do ser e estar; do querer e poder.
Passo a ser outra quando estou perto de ti, meus olhos não sabem mais desviar do teu olhar, meu sorriso se perde em meio ao teu, meu corpo não resiste ao teu toque. Começo a fantasiar cenas e histórias sobre nós dois, tantas palavras ditas num olhar, tanto sentimento perdido no ar, desperdiçado a cada segundo que passamos longe.
E fecho os olhos, lembrando de quando passou em minha frente tão lindo feito anjo, um brilho imenso que fazia bater forte o coração. Andava feito letra, acompanhando a melodia da mais antiga MPB, era complemento da natureza que se fazia em segundo plano junto a você.
As mãos estremecem, é preciso escrever, fazer frases e poesias, tornar real. Como se fosse um só ser, uma só vida se formando em meio às palavras perdidas no espaço do tempo.
E meu ser necessita do teu ser, é o teu ar que quero respirar, tua vida que quero viver. É cada acaso que quero tornar comum.
Despercebido teu olhar não se encontra no meu, sua voz não sussurra meu nome. Meu desejo passou em vão como brisa leve. Quem sabe noutro outono a procura do mesmo luar, da mesma estrela. Quem sabe sua vida não se encontra na minha e juntos iremos compor a mais linda canção....

domingo, 1 de junho de 2008

Conforto

"...onde o sonho é o alimento da alma..."
Especialmente !


Conforto


Outra vez um dia nublado aquele frio entrava pelas frestas da janela e o barulho sedutor do vento me fazia sentir vontade de não sair da cama ainda quente de seu corpo, mesmo que não te sentisse há quase 3 anos.
O café amargo fez me sentir forte, as tarefas do dia eram longas demais para me pegar pensando em ti outra vez... Não que tudo fosse mais importante, mas sua falta me fazia refém da saudade e não podia me permitir isso outra vez, tinha mais coisas com o que me preocupar. A casa vazia ecoava minha voz, ainda rouca. A água fria escorria minhas mãos nas tarefas. O tempo passava...
Sentei-me na cama para trabalhar um pouco, escrever ainda me fazia bem e me deixava firme. O laptop parecia ter seu cheiro, tudo me lembrou você. Uma esperança fincava no peito, uma vontade imensa de abrir mais uma minha caixa de e-mails e ter algum sinal de saudade vindo de sua parte. Mas nada. Novamente nada. Uma lágrima escorre, um soluço se faz. Devia haver alguma forte disso tudo acabar, nem que seja temporariamente. Foi quando vi chegar algumas palavras, toda juntas formando frases e textos que me confortaram o resto do dia.
Júlio* era quem causava essa nova sensação. Passava-me uma boa impressão, um bom sentimento, uma amizade nova e única (que eu não sentia há tempos). Entrara na minha vida não havia mais de 1 mês, mas sabia o que fazer, o que falar, o jeito de olhara, sorrir e abraçar. Não me fazia esquecer você, mas me manteve tranqüila e longe da saudade enquanto lia todas aquelas frases. A cada resposta um novo envio, uma felicidade que invadia e um segundo a mais sem pensar em você, na falta que me faz.
O tempo foi passando e dia após dia Julio se fez presente enquanto de longe eu ainda buscava no céu um sinal mandado por você. Não! Não se sinta trocado! São sentimentos diferentes... Minha vida pertence a você... Já o Julio.. Ahh.. Com ele é diferente... Eu cedi parte de meus sentimentos para que pudessem ser vividos e não apenas guardados aqui dentro, esperando por alguém que pudesse compreender.
E assim foi, nos últimos dias frios... Chega a noite e mais um lado da cama vazio, mais um choro, um sonho e seu cheiro dominando meu ser (longe de ti). Entenda que para sempre estarei aqui esperando por ti de braços abertos, mas que Júlio fez eu perceber que a espera pode ser menos dolorida com alguém por perto.
Um céu esperando por nós...

*Júlio é um nome fictício de um novo grande amigo! Obrigada por todas as palavras e por ter estado presente sempre que preciso e em todos os momentos!


Lah Cristine

PARA FK (para ler ao som de "Changes")

A pedido do Pablo... Postando pra ele mais um de seus textos maravilhosos!
Pablo... Obrigada por estar sempre presente na minha vida... Uma grande amizade, um amigo inexplicável. Unidos por simples palavras! Te Amo!



PARA F.K - Fragmentos de Caio Fernando Abreu
(Texto adaptado por Pablo Damian)
ELA - Sri Lanka, quem sabe? Você pode catalogar espécies de animais e plantas exóticas e mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka? Que cara louco esse, hein! E morram de saudade, não é isso que te importa? Uma certa saudade: e você em Sri Lanka. Quanto a mim,fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, em plena ressaca. Um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá. Um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego, para poder pagar essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados.

DAMA - A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Eu fico sempre do lado de fora, louca de vontade de estar lá. Tá me entendendo, garotão? Nada, você não entende nada. Dama da noite; todos me chamam e nem sabem o por que.

ELA - Claro, tentamos tudo! Inclusive trepar, porque tantas coincidências e histórias em comum, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas o que foi que aconteceu?
E eu não queria aceitar que fosse isso, sabe? Éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados. Mas no final das contas...
Cultura demais mata o corpo da gente, cara. Filmes demais, livros demais, palavras demais.

DAMA - Pobre anjo cretino do fim de todas as coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto, sem marca nenhuma. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de pau duro,tem tesão por tudo, até por fechadura. Mas anota aí pro teu futuro: essa sede, ninguém mata. Você não consegue nunca. Sexo é só na imaginação. Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, boy.

ELA - Não que fosse amor de menos, muito pelo contrário. O que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher. Não se erice, queridinho, não tenho nada contra veado. Não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral. Não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, afinal você naquele tempo ainda não tinha se decidido a dar a bunda, nem eu a lamber boceta.

DAMA - Queixo furadinho, hein? Já observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Não me venha com aquela história: tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Capão da Canoa, tive que dormir na mesma cama com um carinha que. Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Nativo de Câncer, eu sei: cara de lua, bunda gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Você nem viu nada ainda, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha em punho. Comeu a bundinha, deu o cuzinho, pronto: paranóia total. Nem beijar na boca você beija. Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda por cima adoro veado. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai matando a gente aos pouquinhos.


ELA - Ando angustiada demais, meu amigo. Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso. Já li tudo, cara. Já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia. Sobrou só esse nó no peito. Agora o que eu faço? Não me venhas com autoconhecimentos-redentores. Já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? Você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas. Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti. Eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando: perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança. Enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo: reage, companheira, reage. As pessoas a tua volta precisam do teu potencial criativo, da tua lucidez libertária. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, as noites não terminavam nunca, mas eu reagi, despirei, voltei a ser isso que chamam de normal. E cadê a lucidez libertária? Cadê o potencial criativo?

DAMA - Dama da noite, eles falam, eu sei. Aquela flor de cheiro enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: não sabe nada, fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho. Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você do que de mim. Eu tive uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. Sabe quando vai dar? Pra você, nem isso. Eu tive a ilusão, mas você chegou depois que mataram a minha ilusão. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Ô boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim. Eu sou curtida, meu bem. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem sabe que é inocente. Tem umas coisas que a gente vai deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais.
Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho castanho me olhando assim. Eu sei que marco você, marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo,você vai lembrar uma vez conheceu uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo e na solidão.

ELA - Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar. Não estou desesperada. Não mais do que sempre estive. Não estou bêbada, nem louca, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída. Não se preocupe,não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar. Tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?
Eu tive tanto amor um dia. Não me deixaram ser a coisa boa que eu era.

(Chopin – Ângela “Amor meu grande amor”)

DAMA - Acontece que eu ainda sou babaca, pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara! Aquele que eu espero, vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você. Pra ele. Pra ele eu me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor.

ELA - Não esqueça então de mandar um cartão de Sri Lanka. Que você consiga catalogar anfíbios raros e que te aconteça alguma coisa bem bonita. Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê. Como aquela fé que a gente teve um dia. Me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo de novo. Não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. Mas tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo certo. E eu continuarei repetindo todas as manhãs: que seja doce. Mas se alguém me perguntar o que deve ser doce, talvez eu não saiba responder.

DAMA - Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas. envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem. Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui continua tudo certo. Faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia. Mas tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo certo. E eu continuarei repetindo todas as manhãs: que seja doce. Mas se alguém me perguntar o que deve ser doce, talvez eu não saiba responder.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Os invasores

Eles chegam sem nenhum pudor. Sem pedir licença. Invadem a minha vida, os meus dias. Me deixam as noites em claro. Me perturbam em todos os momentos do dia. Trantornam minhas idéias, e fazem morada dentro da minha cabeça. Chega um momento que começo a pensar mais neles do que em mim mesmo. Eles me arrebatam com suas histórias. Montam um pequeno quebra cabeças na minha cabeça. No início é tudo muito incerto. Eununca quem eles são de verdade. Eles vão me dominando aos poucos, mostrando os seus traços, seus gotos, seus desejos, suas ambições. Seus amores, sempre os seus amores.
Eles me sugam as forças, as energias. E em meio a cafés e cigarros e muita insônia eles vêem, as vezes todos de uma vez só. Se embaralham em minha cabeça. Querem sair, tem uma história e querem que eu a conte. Mantenho longos diálogos com eles. Eles nem sempre respondem no momento certo. Mas sempre respondem. Eles me ansiam. Unhas me deixam sem.
Eu penso na maravila que deve ser, ser um personagem. E eles devem pensar na maravilha que deve ser existir. Eu acredito que um personagem trsnforma a vida de quem o escreve, sempre ensina uma grande lição. Eles não existem, mesmo sendo extremamente reais. reis de suas histórias, dominadores de nossas cabeças. Nos embriagam com o vinho de suas aventuras, nos fazem chorar, odia-los... Chegamos a ter pena deles. Mas eles são cruéis, pois são limitados.
Todo personagem tem uma missão. Uma missão numa terra, num mundo onde o Deus é o escritor. Um Deus imperfeito. Um Deus que chora, um Deus que nem sempre sabe o que faz. Há uma responsabilidade enorme em contar a vida de um ser que não existe.
Eles tem a missão de não existirem, e nós, os que os escrevemos, a de eterniza-los.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma Guerreira

O sangue escorria entre meus dedos e a faca no canto da sala ainda mostrava exatamente a cena do crime.
Foi tudo muito rápido naquela manhã. Acordei cedo, como fazia nos últimos cinco anos desde que entrei na Lethos para trabalhar com as embalagens da revista, fui até o café da esquina para tomar meu capuccino e seguir para empresa, as coisas haviam mudado desde que cheguei a gerência.
Sentia-me seguida, aquela sensação estava me irritando. Olhava pra trás e sempre era aquele sujeitinho sujo e mal vestido que estava perto de mim, de certo ângulo ele era até bonito, mas sujo!
Cheguei na Lethos e fui direto pra minha sala no décimo segundo andar, tinha que fechar os últimos detalhes da próxima edição da revista, mas algo me tirou a atenção. Olhei pela janela e aquele sujeitinho imundo me olhava lá de baixo, do outro lado da rua.
Aquilo estava me fazendo mal, precisava tomar uma atitude, chamar a polícia, a cavaleria, o exército... Aquele sujeitinho mão podia continuar me seguindo. Já fazia dias que isso havia começado.
Demorou demais pra chegar a hora do almoço, mas resolvi sair alguns minutos antes pra tentar me acalmar. Foi fato. Coloquei o pé do lado de fora da Lethos e ele já estava de olho em mim. Resolvi ir almoçar no Mon Petit, fazia muitos anos que eu não passava por lá, desde quando voltei da viagem à Paris ainda abalada por deixar uma vida... Esqueça, não quero tocar nesse assunto.
Pelo menos ali dentro eu estava salva... Liguei pro Antônio pra dizer que chegaria mais cedo em casa e quem sabe poderíamos sair e comemorar nosso aniversário de casamento.
Na volta à empresa não encontrei mais com o sujeitinho, meu trabalho até rendeu mais. Foi quando percebi um presente em cima de minha mesa. “Que lindo, Antônio quis me fazer uma surpresa” pensei, mas estava errada, ao abrir a caixa havia um sapatinho azul de lã e um bilhete exatamente assim: Me encontre no café da esquina as 19:00 horas, preciso falar com a senhora. Assunto de teu interesse. Ass: Juan.
Era 18:45 quando sai da Lethos, segui a Avenida da Torre meio reciosa, mas precisava saber do que se tratava aquele bilhete. Cheguei ao café da esquina e quem está a minha espera é aquele sujeitinho imundo. Convida-me pra sentar e diz que precisa falar comigo. Ficamos conversando por mais uma hora, estava assustada com aquela conversa, como pode ter acontecido isso?
Entrei em casa disposta a ter uma conversa séria com Antônio, agora algumas coisas iam precisar mudar, a verdade teria de vir a tona. Nos sentamos no sofá e comecei a contar da viagem que eu havia feito há vinte anos. “Meu bem, eu tinha apenas dezessete anos quando ganhei uma viagem à Paris. Fui fazer intercâmbio mas acabei passando quase um ano. Conheci Pierre e nos apaixonamos, acabei engravidando e depois de longos nove meses nosso filho nasceu. Lindo e forte! A responsabilidade de mãe começou a pesar sobre mim, eu era muito jovem e numa noite resolvi fugir e voltar para o Brasil. Deixei apenas um bilhete dizendo que Pierre cuidasse de nosso filho e que nunca mais me procurasse.”
Há dias um sujeitinho vem me seguindo e hoje nos encontramos para conversar. Ele é meu filho, aquele que abandonei há vinte anos. Apesar de tudo que temos, tudo que passei, quero ter a oportunidade de estar com meu filho Juan.
Antônio meio atordoado se levanta e diz que não aceita, que vai embora e ponto final. Não sabia o que fazer, era um pedaço de mim contra o homem que esteve ao meu lado nos últimos anos. Corri para meu quarto e me tranquei. Aquela situação parecia que não ia se resolver assim tão rápido. Foi quando escutei o barulho...
Na sala, ali mesmo, perto do sofá, estava Antônio e Juan. No chão, cobertos de sangue e quase perto da porta Alicia, minha filha, com a faca na mão. “Mamãe se não íamos viver em paz com o papai e esse seu filho, que fosse só nós duas, mas errei.”. Exatamente as ultimas palavras que ouvi de minha doce Alicia, com a faca se matou, se condenando pelos crimes que tinha cometido.
Hoje estou presa nesse hospital, me chama de louca, mas agora você entende... Sou apenas uma mãe, uma mulher... A guerreira que perdeu a razão de viver. Adeus!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O Caderno

Era só ter feito tudo como planejado, mas não, tínhamos que inventar e querer mais.Nunca é o suficiente, a vontade, a sede do ser e poder ter aquele homem falava mais forte.
Não pense que é um simples homem! Não!!! Ele é aquela mistura sensual dos amantes latinos com aqueles atletas da Grécia antiga, possui um jeito de olhar que invade e seu falar parece música.
Agora você me pergunta “Por que se envolver numa história dessas?!” Orra, não me venha com esse papinho de quem nunca fez nada fora do comum, de quem nunca aumentou os planos.
Uma mulher, um homem e outra mulher... Histórias diferentes, idéias quase em comum... desejos a flor da pele.
Aquela tarde clara com a avenida movimentada foi o cenário perfeito para chegar a conclusão de que seria mais do que planos de um simples caderno. O farol vermelho me agoniava, já estava em cima da hora e ele poderia estar lá esperando por nós com a vontade que guardava pra si há tanto tempo. Samantha estava linda com o vestido preto que estava guardado para esse grande momento, me olhava de forma curiosa e anciosa e eu retribui com um sorriso, tentando acalmá-la.
Chegamos no barzinho (lugar aconchegante, iluminação fraca)e lá estava ele nos esperando de forma impecável. Ainda de social, por ter ido direto da empresa, passou aquele ar de superioridade. A calça marcava seu corpo musculoso e o olhar nos seguiu desde o momento em que descemos do carro.
Nos sentamos num lugar mais isolado, pedimos um Martini e brindamos a formatura de Samantha. A conversa fluía naturalmente, exatamente como sua mão entre minhas pernas. Estava ficando tarde e precisávamos voltar para casa. Otávio se levantou e foi pagar a conta, eu e Samantha nos olhamos e levantamos em direção ao carro, deixando apenas um pequeno bilhete escrito: “Otávio, te esperamos no carro. Com carinho Manuela e Samantha”.
Até ai, tudo estava igual no caderno, mas a noite é uma criança e fugir das regras é de certa forma, energizante.
O celular desperta, era 7:00 horas da manha, abro e olho e vejo Samantha acordando e Otávio ainda vestindo a camisa de linho azul clara nos abre um sorriso encantador. Depois de um café da manha maravilhoso, nos beija a boca e se despede.
Foi como ver sonhos se realizando, ao fechar aquela porta, minha eterna amiga e eu começamos a rir sem parar, arrumamos a cama e a cozinha, tomamos uma ducha e fomos fazer compras.
O carro estava parado do outro lado da rua... Duas rosas vermelhas e um bilhete nos esperava em cima dele... “Obrigada por terem me dado a melhor noite de minha vida, acordar ao lado de duas mulheres maravilhosas como vocês é encantador. Nos vemos a noite! Com amor. Otávio”. Já dentro do carro, nossos cadernos estavam ainda abertos na página do plano. Agora era hora de tudo isso terminar, e uma única palavra frase podia acabar com tudo. “Plano executado com sucesso!” ficou escrito e logo abaixo simples assim: “O marido perfeito... NOSSO!”.
Sabe aquele plano que você ainda tem em mente? Esqueça! Vai ser apenas um caderno como esse serviu para nós. Agora não venha dizendo que ainda sou louca. Sei que você também pensa nisso.

O outro lado do Espelho

Num lugar onde temos os melhores e até mesmo os piores pensamentos, vive o outro lado do espelho, o lado que fala o que pensa, que pode desabafar aquilo que deve ser falado. O outro lado do espelho pode estar feliz como pode estar triste, triste porque sua outra face está perdendo um grande amigo, e não sabe o que fazer para tê-lo por perto. Ficar olhando pela janela e esperar o tempo passar, deixar as folhas caírem e depois junta-las, não te deixariam aqui, nada disso mostraria o que você está pensando, será que está olhando pela janela, ou está deixando o tempo passar?

Vivemos em um mundo de acreditar, sonhar, viver, aprender, voar, amadurecer, o outro lado do espelho acredita que pode voar, acredita que pode voar para aprender, aprender para amadurecer, amadurecer para sonhar, sonhar para viver, viver para acreditar que podemos voar cada vez mais alto. Nosso mundo pode dar voltas e voltas, nos levando para os mais inimagináveis caminhos, mas acabamos sempre onde começamos, o outro lado do espelho é assim, vive num lugar que está sempre dando voltas, muitas vezes ele para, pois não consegue continuar, então é quando é hora de voltar à realidade, porque nem mesmo o tempo pode continuar sua história.

Por mais que não queira a vida nos leva a fazer coisas que não pensávamos que poderia acontecer, ou talvez não de certas formas. Amigos que decepcionam paixões que acabam e outras que começam sem pedir permissão acabam deixando o outro lado do espelho prestes a quebrar. É nessa hora que nossa outra face precisa levantar a cabeça e fazer alguma coisa, porque ninguém mais vai fazer tão bem quanto você essas coisas que passam o tempo todo na sua cabeça, mas se achar que não deve, então aproveite o outro lado do espelho e fuja, mas não esqueça que precisa voltar.


De Alexandre Widomski


Meu nome é Blanche DuBois

Disseram-me que eu tomasse um Bonde Chamado Desejo, depois passasse para outro chamado Cemitério, andasse seis quarteirões e desceria nos Campos Elisíos.
Você é tudo que eu tenho no mundo, e você não está contente em me ver. Não, não. Um é o limite. Eu vou tomar só mais um golinho, a saidera. Ai vou guardar a garrafa para não sentir mais a tentação.
Eu quero ficar perto de você, eu preciso ficar com alguém, eu não posso ficar só. Por que como você deve ter notado, eu não estou muito bem. Não estou lhe dizendo isso como uma censura, mas todo o peso caiu nas minhas costas. Não, não. Eu raramente toco em bebida.
Aqui estou eu, saindo de um banho quente e perfumado, me sentindo completamente outra pessoa. Muito bem, vamos falar sem rodeios. Estou pronto para responder todas as perguntas. Não tenho nada a esconder. Cartas na mesa, isso me convém. Quando se trata de algo importante eu sempre digo a verdade - e a verdade é a seguninte: eu nunca enganei ninguém, nem mesmo o senhor. Os cegos conduzem os cegos.
Acho que a tristeza conduz a sinceridade. A pouca sinceridade que há no mundo pertence as pessoas que passaram por alguma tristeza. Desculpe-me! Minha língua está pesada. Não estou habituado a beber mais de uma dose. Duas são o limite e... três! Essa noite eu bebi três.
Eu preciso agora de muita bondade.
Você está falando é sobre desejo brutal... apenas isso... Desejo!... o nome do bonde que me trouxe até aqui. Vocês está me odiando por dizer isso, não está?
Você não gosta dessas longas tardes chuvosas, quando uma hora não é apenas uma hora, mas um pedacinho de eternidade caindo-lhe nas mãos... e quem sabe o que fazer com ele?
Esse bonde chamado Desejo ainda anda por aí, gastando os trilhos a estas horas?
Eu simplismente não conseguia me animar. Só isso. Acho que nunca tentei ficar tão alegre, e acabei estragando tudo. Eu estava apenas obedecendo à lei da natureza.
Mas, um banho quente e um bom copo de bebida gelada sempre me dão uma perspectiva otimista da vida.
Eu gosto da escuridão, a escuridão me conforta. Deve haver um significado obscuro em tudo isso.
Não quero relaismo. Eu quero magia. Sim, magia! É o que tento dar as pessoas. Não digo a verdade, digo o que deveria ser verdade. Por dentro nunca, eu nunca menti com o meu coração.
O oposto da morte é o desejo.
Chego a sentir o cheiro do mar. O resto da minha vida vou viver no mar. E quando morrer, morrerei no mar.
Seja o senhor quem for... eu sempre dependi da bondade de estranhos...

Fragmentos de "Um Bonde Chamado Desejo" de Tennessee Willians

Pablo Damian

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

*Encontro de um cotidiano patéticamente romântico*

Havia estado pelo resto da tarde com aquela queimação no estômago. Tinha a certeza que nenhum homem prestava, que odiava todos. Mesmo que naquele instante pensava em trepar com o primeiro que aparecesse na sua frente. Era mais por honra que por prazer.
"Maldito Carlos Augusto!" pensava enquanto esperava o sinal abrir. "E ainda chove e eu vestida de branco. Que ódio do mundo". Chovia mas estava muito calor, muito abafado. E ainda mais após o que ela viu, o ar era denso e difícil de passar pelas suas narinas. O sinal continuava vermelho, assim como a cor do lençol de cetim que estava na cama hoje pela manhã. O lençol que usamos pela primeira vez, na nossa primeira noite de casados. E ele ainda dizia que o fato de transar só depois do casamento deixava ele louco. E ela sabia como fazer, ela era uma mulher caralho! Mas perdeu em meio aos inpumeros processos de seus escritório que tomavam as suas noites.
Mas mesmo assim, ele não tinha o direito. Ainda mais no lençol da nossa primeira noite. Os homens são todos iguais, insensíveis, nojentos e não se lembram de detalhes. Datas, momentos, nada, tudo passa desapercebido. E ainda mais com uma menina. Uma putinha adolescente, dessas que seduzem homens mais velhos casados nas piscinas do condomínio e se mostram passivas e imaturas, e eles adoram exercer o seu papel de maxo dominador, e ter a sensação de ser o primeiro, a abrir caminhos. Essas putinhas... Devem dar mais que muita mulher de 30 anos. Homem é tudo burro. "Ahhh maldito carlos Augusto, maldita putinha do 508, maldito lençol de cetim, maldito sinal!".
E ela ainda, coitada, havia se preocupado em fazer uma surpresa. Achava seu marido um tanto carente nesses últimos dias. E ela, atolada em trabalho, sem poder ao menos dar atenção para ele. "E eu ainda me sentia culpada!".
Preparou tudo no dia anterior. Saiu mais cedo do escritório, cancelou 3 clientes. 3 clientes importantes, mas nada poderia ser mais importante que o homem que ela amava. Comprou vinho francês, como daquela primeira vez que ele a levou em um restaurante. "Vinho francês tem sabor eterno, como o de um amor verdadeiro". Subiu o elevador, abriu a porta do apartamento devagar. Ninguém na sala deserta. Um barulho no quarto. Ela vai calmamente para não ser notada. Queria fazer uma surpresa, e pelo espelho ela vê. A putinha que deve ter no máximo 15 anos, chupando seu marido, que enloquecido segurava a cabeça da pequena ninfa e metia, metia, metia, até ela perder o fôlego. E ela ria, gostava a putinha. Então ela fica de quatro e pede: "Faz gostoso como tu faz com a tiazona que tu é casado". "Tiazona?"... Tudo bem, era uma menina, ele um homem... Homem tem dessas coisas. São todos uns otários sexuados. Mas tiazona?! Aquilo tinha doido, foi como uma facada no estomago, com várias estocadas ardidas, enquanto o seu marido estocava na vadiazinha do 508. Saiu dali transtornada. Xingou todos seus estagiários. Fumou compusivamente, a tarde toda. Pensou em comprar uma arma. Pensou em fazer uma plástica, mas ela só tinha 28 anos. Nem 30! E o que uma putinha vem dizer que ela era tiazona? Tiazona, tiazona, tiazona... ecoou no seu ouvido a tarde toda.
Ao sair do escritório, um garotinho pediu dinheiro: "Tia, dinheiro pra mim comê". Sem pensar ela para e olha o projeto de gente, sujo e ranhento: "Tia é a puta que te pariu e que tá se encaxanssando e dando o rabo numa hora dessas. Tia é a puta que te pariu. Que tu, o Carlos Alberto, a putinha do 508, a tua mãe morram todos de fome!". "Ela morreu de fome". Seu estômago já estava retalhado e sentiu mais uma estocada. Do estômago ao peito. Tirou 10 reais da carteira, botou novamente. Tirou 50 e deu ao menino. Riu encomodada "Desculpa, eu não tenho troco, fica com 50". O menino riu. "Brigado tia". Ela respirou fundo e seguiu até o seu carro.
Essa cidade, cheia, abafada, chovendo. E eu voltando pro apartamento. Pra minha cama, com o meu lençol vermelho. Com o cheiro da xoxotinha quase virginal daquela putinha. A vadiazinha ainda ficava de 4. Só tive coragem de dar de 4, quando ele me pediu, um ano depois de casados. Mas ele nunca reclamou, até elogiava. Dizia que eu era uma vadia na cama, e aquilo era bom. mas por que outra meu Deus? E logo na minha cama, no meu lençol vermelho. E ainda uma putinha que não sabe nada da vida!
O Carlos Alberto, a putinha, a cliente que havia cortado o bico do seio da amante do marido, o mendiguinho, o trânsito parado. E aquelas estocadas no estômago. E ela ainda indo pra casa. Era preciso fazer alguma coisa. Beber, beber talvez seja a solução.
Era um bar vazio, muito charmoso. Escuro, perfeito. Assim ninguém veria a sua cara de tiazona. Nem de mulher trocada por uma putinha de 15 anos. Sentou em uma mesa perto da porta. O garçom se aproxima, ela não quer ninguém por perto e logo diz: "Um vinho branco francês, o mais caro que tu tiver, e um maço de Marlboro Light". O garçom volto logo após. Serve e ela bebe num gole só. Ele serve outra taça, ela ascende um cigarro. O som de um piano e uma voz cantando em francês ecoa no ambiente. O celular toca. Carlos Alberto. Ela não atende. Toca de novo. Ela não atende.Ela bebe. A música empreguina no vinho e ela tem a sensação de estar bebendo a música. Ela começa a ouvir de novo na sua cabeça "tiazona"... O telefone toca de novo. Ela não atende. Um homem que estava sentado no bar pegunta: "Não vai atender?". "Não pretendo, te incomoda?". "Não, tu deve ter seus motivos. Quer conversar?". "E por que eu deveria?". "Eu quero". Ele levanta-se e senta na mesa junto dela. Ele era bastante bonito. Bastante mesmo. Era o destino conspirando a favor dela pela primeira vez depois de um dia maldito. "Vinho francês?" perguntou ele. "Sim", ela respondeu. "Gosto eterno como um amor verdadeiro". Ela sorri. Realmente, era o destino a favor dela. O homem pra quem ela precisava dar. Uma mulher realizada, é uma mulher vingada.
"Desculpa, eu nem me apresentei. Francisco". Pensou rápido em um nome, um nome que deixasse ele de pau duro. Regina, virginal demais. Camila, puro demais. Maria, comum demais, Shaiane, Rochelly, vulgar e puta demais. Decidiu por Amanda, que é um beijo nos próprios lábios quando se pronuncia. E disse: "Amanda" e bebeu um gole de vinho.
Conversaram, beberam. Ela por ter sido traido com uma putinha de 15 anos no máximo, e ele por ter lembrado de uma pessoa. Na verdade ele não lembrou, nunca esqueceu, "é diferente", dizia ele. Ela havia ficado curiosa, com a história. Ele contava que fazia anos. Ela tentava extrair a história de todas as formas, mais discretas possíveis. Era uma advogada sabia fazer isso muito bem, aliando a sua curiosidade feminina, estava nas mãos com todos os igredientes. Ele decidiu contar.
"Foi no ensino médio, há muito tempo atrás. Uma experiência única. O único amor que eu tive. Erámos melhores amigos"... Ele era gay, tinha algum defeito... "Não, antes que você me pergunte, eu não sou gay. Foi uma vez só, a única, e especial. Então, éramos bons amigos, melhores. Acabamos nos envolvendo. Então a amizade acabou e nosso amor se tornou impossível. Por que eu o amava, tanto como ele me amava, mas eu não queria aquilo pra minha vida naquela época. Meus amigos, minha família. E eu machuquei demais essa pessoa. Eu não podia dizer o que ela precisava escutar, que era que eu não a amava, por que não era verdade, e a gente não deve mentor quando ama". "Mas você ainda gosta dele?". "Muito...". "Então?". "Um amor uma vez impossível, é pra sempre impossível. É como esse vinho francês, gom um gosto eterno, mas impossível de guardar para sempre na boca". Houve um momento de silêncio. Ela chorou pela primeira vez no dia. Depois de tudo, foi a primeira vez que chorou no dia. O peito aliviava com as lágrimas. Ela estava envolvida. Chorava por outro homem, na verdade por outros dois, já era uma traição, dupla. "E ele?"... "Ele? Quando a gente tava junto, ele sempre dizia que iria montar uma casinha, uma cabana, em uma praia deserta, e a gente ia se amar, com o por do sol de um dia cinzento, com apenas o barulho do mar, e os Beatles tocando. Ele realizou o nosso sonho, sozinho. Foi até a praia, até a cabana. Colocou os Beatles no som, e tomou uma última garrafa de vinho francês, escrevendo numa carta "assim como você Francisco, o vinho francês. Eterno". Foi a última notícia que tive dele. Ele hoje deve estar no mar, junto com os peixes. Ele sempre dizia que iria morrer no mar, onde tudo começou. Que a vida é como a espuma do mar, por isso a gente deve mergulhar".
Ela chorava, e sentia pena da putinha do 508, pois ela nunca iria entender, ela não era mulher, ela era uma menina. Ela foi ao banheiro e quando voltou havia apenas um bilhete na mesa.
"O amor é um punhal de dois gumes: Não amar é sofrer, amar é sofrer mais".
Chegou em casa, o marido jah dormia sobre os leçõis veirmelhos de cetim. Tirou a roupa e acordou o marido. "De quatro, como com a putinha do 508".


Pablo Damian