Eles chegam sem nenhum pudor. Sem pedir licença. Invadem a minha vida, os meus dias. Me deixam as noites em claro. Me perturbam em todos os momentos do dia. Trantornam minhas idéias, e fazem morada dentro da minha cabeça. Chega um momento que começo a pensar mais neles do que em mim mesmo. Eles me arrebatam com suas histórias. Montam um pequeno quebra cabeças na minha cabeça. No início é tudo muito incerto. Eununca quem eles são de verdade. Eles vão me dominando aos poucos, mostrando os seus traços, seus gotos, seus desejos, suas ambições. Seus amores, sempre os seus amores.
Eles me sugam as forças, as energias. E em meio a cafés e cigarros e muita insônia eles vêem, as vezes todos de uma vez só. Se embaralham em minha cabeça. Querem sair, tem uma história e querem que eu a conte. Mantenho longos diálogos com eles. Eles nem sempre respondem no momento certo. Mas sempre respondem. Eles me ansiam. Unhas me deixam sem.
Eu penso na maravila que deve ser, ser um personagem. E eles devem pensar na maravilha que deve ser existir. Eu acredito que um personagem trsnforma a vida de quem o escreve, sempre ensina uma grande lição. Eles não existem, mesmo sendo extremamente reais. reis de suas histórias, dominadores de nossas cabeças. Nos embriagam com o vinho de suas aventuras, nos fazem chorar, odia-los... Chegamos a ter pena deles. Mas eles são cruéis, pois são limitados.
Todo personagem tem uma missão. Uma missão numa terra, num mundo onde o Deus é o escritor. Um Deus imperfeito. Um Deus que chora, um Deus que nem sempre sabe o que faz. Há uma responsabilidade enorme em contar a vida de um ser que não existe.
Eles tem a missão de não existirem, e nós, os que os escrevemos, a de eterniza-los.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Uma Guerreira
O sangue escorria entre meus dedos e a faca no canto da sala ainda mostrava exatamente a cena do crime.
Foi tudo muito rápido naquela manhã. Acordei cedo, como fazia nos últimos cinco anos desde que entrei na Lethos para trabalhar com as embalagens da revista, fui até o café da esquina para tomar meu capuccino e seguir para empresa, as coisas haviam mudado desde que cheguei a gerência.
Sentia-me seguida, aquela sensação estava me irritando. Olhava pra trás e sempre era aquele sujeitinho sujo e mal vestido que estava perto de mim, de certo ângulo ele era até bonito, mas sujo!
Cheguei na Lethos e fui direto pra minha sala no décimo segundo andar, tinha que fechar os últimos detalhes da próxima edição da revista, mas algo me tirou a atenção. Olhei pela janela e aquele sujeitinho imundo me olhava lá de baixo, do outro lado da rua.
Aquilo estava me fazendo mal, precisava tomar uma atitude, chamar a polícia, a cavaleria, o exército... Aquele sujeitinho mão podia continuar me seguindo. Já fazia dias que isso havia começado.
Demorou demais pra chegar a hora do almoço, mas resolvi sair alguns minutos antes pra tentar me acalmar. Foi fato. Coloquei o pé do lado de fora da Lethos e ele já estava de olho em mim. Resolvi ir almoçar no Mon Petit, fazia muitos anos que eu não passava por lá, desde quando voltei da viagem à Paris ainda abalada por deixar uma vida... Esqueça, não quero tocar nesse assunto.
Pelo menos ali dentro eu estava salva... Liguei pro Antônio pra dizer que chegaria mais cedo em casa e quem sabe poderíamos sair e comemorar nosso aniversário de casamento.
Na volta à empresa não encontrei mais com o sujeitinho, meu trabalho até rendeu mais. Foi quando percebi um presente em cima de minha mesa. “Que lindo, Antônio quis me fazer uma surpresa” pensei, mas estava errada, ao abrir a caixa havia um sapatinho azul de lã e um bilhete exatamente assim: Me encontre no café da esquina as 19:00 horas, preciso falar com a senhora. Assunto de teu interesse. Ass: Juan.
Era 18:45 quando sai da Lethos, segui a Avenida da Torre meio reciosa, mas precisava saber do que se tratava aquele bilhete. Cheguei ao café da esquina e quem está a minha espera é aquele sujeitinho imundo. Convida-me pra sentar e diz que precisa falar comigo. Ficamos conversando por mais uma hora, estava assustada com aquela conversa, como pode ter acontecido isso?
Entrei em casa disposta a ter uma conversa séria com Antônio, agora algumas coisas iam precisar mudar, a verdade teria de vir a tona. Nos sentamos no sofá e comecei a contar da viagem que eu havia feito há vinte anos. “Meu bem, eu tinha apenas dezessete anos quando ganhei uma viagem à Paris. Fui fazer intercâmbio mas acabei passando quase um ano. Conheci Pierre e nos apaixonamos, acabei engravidando e depois de longos nove meses nosso filho nasceu. Lindo e forte! A responsabilidade de mãe começou a pesar sobre mim, eu era muito jovem e numa noite resolvi fugir e voltar para o Brasil. Deixei apenas um bilhete dizendo que Pierre cuidasse de nosso filho e que nunca mais me procurasse.”
Há dias um sujeitinho vem me seguindo e hoje nos encontramos para conversar. Ele é meu filho, aquele que abandonei há vinte anos. Apesar de tudo que temos, tudo que passei, quero ter a oportunidade de estar com meu filho Juan.
Antônio meio atordoado se levanta e diz que não aceita, que vai embora e ponto final. Não sabia o que fazer, era um pedaço de mim contra o homem que esteve ao meu lado nos últimos anos. Corri para meu quarto e me tranquei. Aquela situação parecia que não ia se resolver assim tão rápido. Foi quando escutei o barulho...
Na sala, ali mesmo, perto do sofá, estava Antônio e Juan. No chão, cobertos de sangue e quase perto da porta Alicia, minha filha, com a faca na mão. “Mamãe se não íamos viver em paz com o papai e esse seu filho, que fosse só nós duas, mas errei.”. Exatamente as ultimas palavras que ouvi de minha doce Alicia, com a faca se matou, se condenando pelos crimes que tinha cometido.
Hoje estou presa nesse hospital, me chama de louca, mas agora você entende... Sou apenas uma mãe, uma mulher... A guerreira que perdeu a razão de viver. Adeus!
Foi tudo muito rápido naquela manhã. Acordei cedo, como fazia nos últimos cinco anos desde que entrei na Lethos para trabalhar com as embalagens da revista, fui até o café da esquina para tomar meu capuccino e seguir para empresa, as coisas haviam mudado desde que cheguei a gerência.
Sentia-me seguida, aquela sensação estava me irritando. Olhava pra trás e sempre era aquele sujeitinho sujo e mal vestido que estava perto de mim, de certo ângulo ele era até bonito, mas sujo!
Cheguei na Lethos e fui direto pra minha sala no décimo segundo andar, tinha que fechar os últimos detalhes da próxima edição da revista, mas algo me tirou a atenção. Olhei pela janela e aquele sujeitinho imundo me olhava lá de baixo, do outro lado da rua.
Aquilo estava me fazendo mal, precisava tomar uma atitude, chamar a polícia, a cavaleria, o exército... Aquele sujeitinho mão podia continuar me seguindo. Já fazia dias que isso havia começado.
Demorou demais pra chegar a hora do almoço, mas resolvi sair alguns minutos antes pra tentar me acalmar. Foi fato. Coloquei o pé do lado de fora da Lethos e ele já estava de olho em mim. Resolvi ir almoçar no Mon Petit, fazia muitos anos que eu não passava por lá, desde quando voltei da viagem à Paris ainda abalada por deixar uma vida... Esqueça, não quero tocar nesse assunto.
Pelo menos ali dentro eu estava salva... Liguei pro Antônio pra dizer que chegaria mais cedo em casa e quem sabe poderíamos sair e comemorar nosso aniversário de casamento.
Na volta à empresa não encontrei mais com o sujeitinho, meu trabalho até rendeu mais. Foi quando percebi um presente em cima de minha mesa. “Que lindo, Antônio quis me fazer uma surpresa” pensei, mas estava errada, ao abrir a caixa havia um sapatinho azul de lã e um bilhete exatamente assim: Me encontre no café da esquina as 19:00 horas, preciso falar com a senhora. Assunto de teu interesse. Ass: Juan.
Era 18:45 quando sai da Lethos, segui a Avenida da Torre meio reciosa, mas precisava saber do que se tratava aquele bilhete. Cheguei ao café da esquina e quem está a minha espera é aquele sujeitinho imundo. Convida-me pra sentar e diz que precisa falar comigo. Ficamos conversando por mais uma hora, estava assustada com aquela conversa, como pode ter acontecido isso?
Entrei em casa disposta a ter uma conversa séria com Antônio, agora algumas coisas iam precisar mudar, a verdade teria de vir a tona. Nos sentamos no sofá e comecei a contar da viagem que eu havia feito há vinte anos. “Meu bem, eu tinha apenas dezessete anos quando ganhei uma viagem à Paris. Fui fazer intercâmbio mas acabei passando quase um ano. Conheci Pierre e nos apaixonamos, acabei engravidando e depois de longos nove meses nosso filho nasceu. Lindo e forte! A responsabilidade de mãe começou a pesar sobre mim, eu era muito jovem e numa noite resolvi fugir e voltar para o Brasil. Deixei apenas um bilhete dizendo que Pierre cuidasse de nosso filho e que nunca mais me procurasse.”
Há dias um sujeitinho vem me seguindo e hoje nos encontramos para conversar. Ele é meu filho, aquele que abandonei há vinte anos. Apesar de tudo que temos, tudo que passei, quero ter a oportunidade de estar com meu filho Juan.
Antônio meio atordoado se levanta e diz que não aceita, que vai embora e ponto final. Não sabia o que fazer, era um pedaço de mim contra o homem que esteve ao meu lado nos últimos anos. Corri para meu quarto e me tranquei. Aquela situação parecia que não ia se resolver assim tão rápido. Foi quando escutei o barulho...
Na sala, ali mesmo, perto do sofá, estava Antônio e Juan. No chão, cobertos de sangue e quase perto da porta Alicia, minha filha, com a faca na mão. “Mamãe se não íamos viver em paz com o papai e esse seu filho, que fosse só nós duas, mas errei.”. Exatamente as ultimas palavras que ouvi de minha doce Alicia, com a faca se matou, se condenando pelos crimes que tinha cometido.
Hoje estou presa nesse hospital, me chama de louca, mas agora você entende... Sou apenas uma mãe, uma mulher... A guerreira que perdeu a razão de viver. Adeus!
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
O Caderno
Era só ter feito tudo como planejado, mas não, tínhamos que inventar e querer mais.Nunca é o suficiente, a vontade, a sede do ser e poder ter aquele homem falava mais forte.
Não pense que é um simples homem! Não!!! Ele é aquela mistura sensual dos amantes latinos com aqueles atletas da Grécia antiga, possui um jeito de olhar que invade e seu falar parece música.
Agora você me pergunta “Por que se envolver numa história dessas?!” Orra, não me venha com esse papinho de quem nunca fez nada fora do comum, de quem nunca aumentou os planos.
Uma mulher, um homem e outra mulher... Histórias diferentes, idéias quase em comum... desejos a flor da pele.
Aquela tarde clara com a avenida movimentada foi o cenário perfeito para chegar a conclusão de que seria mais do que planos de um simples caderno. O farol vermelho me agoniava, já estava em cima da hora e ele poderia estar lá esperando por nós com a vontade que guardava pra si há tanto tempo. Samantha estava linda com o vestido preto que estava guardado para esse grande momento, me olhava de forma curiosa e anciosa e eu retribui com um sorriso, tentando acalmá-la.
Chegamos no barzinho (lugar aconchegante, iluminação fraca)e lá estava ele nos esperando de forma impecável. Ainda de social, por ter ido direto da empresa, passou aquele ar de superioridade. A calça marcava seu corpo musculoso e o olhar nos seguiu desde o momento em que descemos do carro.
Nos sentamos num lugar mais isolado, pedimos um Martini e brindamos a formatura de Samantha. A conversa fluía naturalmente, exatamente como sua mão entre minhas pernas. Estava ficando tarde e precisávamos voltar para casa. Otávio se levantou e foi pagar a conta, eu e Samantha nos olhamos e levantamos em direção ao carro, deixando apenas um pequeno bilhete escrito: “Otávio, te esperamos no carro. Com carinho Manuela e Samantha”.
Até ai, tudo estava igual no caderno, mas a noite é uma criança e fugir das regras é de certa forma, energizante.
O celular desperta, era 7:00 horas da manha, abro e olho e vejo Samantha acordando e Otávio ainda vestindo a camisa de linho azul clara nos abre um sorriso encantador. Depois de um café da manha maravilhoso, nos beija a boca e se despede.
Foi como ver sonhos se realizando, ao fechar aquela porta, minha eterna amiga e eu começamos a rir sem parar, arrumamos a cama e a cozinha, tomamos uma ducha e fomos fazer compras.
O carro estava parado do outro lado da rua... Duas rosas vermelhas e um bilhete nos esperava em cima dele... “Obrigada por terem me dado a melhor noite de minha vida, acordar ao lado de duas mulheres maravilhosas como vocês é encantador. Nos vemos a noite! Com amor. Otávio”. Já dentro do carro, nossos cadernos estavam ainda abertos na página do plano. Agora era hora de tudo isso terminar, e uma única palavra frase podia acabar com tudo. “Plano executado com sucesso!” ficou escrito e logo abaixo simples assim: “O marido perfeito... NOSSO!”.
Sabe aquele plano que você ainda tem em mente? Esqueça! Vai ser apenas um caderno como esse serviu para nós. Agora não venha dizendo que ainda sou louca. Sei que você também pensa nisso.
Não pense que é um simples homem! Não!!! Ele é aquela mistura sensual dos amantes latinos com aqueles atletas da Grécia antiga, possui um jeito de olhar que invade e seu falar parece música.
Agora você me pergunta “Por que se envolver numa história dessas?!” Orra, não me venha com esse papinho de quem nunca fez nada fora do comum, de quem nunca aumentou os planos.
Uma mulher, um homem e outra mulher... Histórias diferentes, idéias quase em comum... desejos a flor da pele.
Aquela tarde clara com a avenida movimentada foi o cenário perfeito para chegar a conclusão de que seria mais do que planos de um simples caderno. O farol vermelho me agoniava, já estava em cima da hora e ele poderia estar lá esperando por nós com a vontade que guardava pra si há tanto tempo. Samantha estava linda com o vestido preto que estava guardado para esse grande momento, me olhava de forma curiosa e anciosa e eu retribui com um sorriso, tentando acalmá-la.
Chegamos no barzinho (lugar aconchegante, iluminação fraca)e lá estava ele nos esperando de forma impecável. Ainda de social, por ter ido direto da empresa, passou aquele ar de superioridade. A calça marcava seu corpo musculoso e o olhar nos seguiu desde o momento em que descemos do carro.
Nos sentamos num lugar mais isolado, pedimos um Martini e brindamos a formatura de Samantha. A conversa fluía naturalmente, exatamente como sua mão entre minhas pernas. Estava ficando tarde e precisávamos voltar para casa. Otávio se levantou e foi pagar a conta, eu e Samantha nos olhamos e levantamos em direção ao carro, deixando apenas um pequeno bilhete escrito: “Otávio, te esperamos no carro. Com carinho Manuela e Samantha”.
Até ai, tudo estava igual no caderno, mas a noite é uma criança e fugir das regras é de certa forma, energizante.
O celular desperta, era 7:00 horas da manha, abro e olho e vejo Samantha acordando e Otávio ainda vestindo a camisa de linho azul clara nos abre um sorriso encantador. Depois de um café da manha maravilhoso, nos beija a boca e se despede.
Foi como ver sonhos se realizando, ao fechar aquela porta, minha eterna amiga e eu começamos a rir sem parar, arrumamos a cama e a cozinha, tomamos uma ducha e fomos fazer compras.
O carro estava parado do outro lado da rua... Duas rosas vermelhas e um bilhete nos esperava em cima dele... “Obrigada por terem me dado a melhor noite de minha vida, acordar ao lado de duas mulheres maravilhosas como vocês é encantador. Nos vemos a noite! Com amor. Otávio”. Já dentro do carro, nossos cadernos estavam ainda abertos na página do plano. Agora era hora de tudo isso terminar, e uma única palavra frase podia acabar com tudo. “Plano executado com sucesso!” ficou escrito e logo abaixo simples assim: “O marido perfeito... NOSSO!”.
Sabe aquele plano que você ainda tem em mente? Esqueça! Vai ser apenas um caderno como esse serviu para nós. Agora não venha dizendo que ainda sou louca. Sei que você também pensa nisso.
O outro lado do Espelho
Num lugar onde temos os melhores e até mesmo os piores pensamentos, vive o outro lado do espelho, o lado que fala o que pensa, que pode desabafar aquilo que deve ser falado. O outro lado do espelho pode estar feliz como pode estar triste, triste porque sua outra face está perdendo um grande amigo, e não sabe o que fazer para tê-lo por perto. Ficar olhando pela janela e esperar o tempo passar, deixar as folhas caírem e depois junta-las, não te deixariam aqui, nada disso mostraria o que você está pensando, será que está olhando pela janela, ou está deixando o tempo passar?
Vivemos em um mundo de acreditar, sonhar, viver, aprender, voar, amadurecer, o outro lado do espelho acredita que pode voar, acredita que pode voar para aprender, aprender para amadurecer, amadurecer para sonhar, sonhar para viver, viver para acreditar que podemos voar cada vez mais alto. Nosso mundo pode dar voltas e voltas, nos levando para os mais inimagináveis caminhos, mas acabamos sempre onde começamos, o outro lado do espelho é assim, vive num lugar que está sempre dando voltas, muitas vezes ele para, pois não consegue continuar, então é quando é hora de voltar à realidade, porque nem mesmo o tempo pode continuar sua história.
Por mais que não queira a vida nos leva a fazer coisas que não pensávamos que poderia acontecer, ou talvez não de certas formas. Amigos que decepcionam paixões que acabam e outras que começam sem pedir permissão acabam deixando o outro lado do espelho prestes a quebrar. É nessa hora que nossa outra face precisa levantar a cabeça e fazer alguma coisa, porque ninguém mais vai fazer tão bem quanto você essas coisas que passam o tempo todo na sua cabeça, mas se achar que não deve, então aproveite o outro lado do espelho e fuja, mas não esqueça que precisa voltar.
De Alexandre Widomski
Vivemos em um mundo de acreditar, sonhar, viver, aprender, voar, amadurecer, o outro lado do espelho acredita que pode voar, acredita que pode voar para aprender, aprender para amadurecer, amadurecer para sonhar, sonhar para viver, viver para acreditar que podemos voar cada vez mais alto. Nosso mundo pode dar voltas e voltas, nos levando para os mais inimagináveis caminhos, mas acabamos sempre onde começamos, o outro lado do espelho é assim, vive num lugar que está sempre dando voltas, muitas vezes ele para, pois não consegue continuar, então é quando é hora de voltar à realidade, porque nem mesmo o tempo pode continuar sua história.
Por mais que não queira a vida nos leva a fazer coisas que não pensávamos que poderia acontecer, ou talvez não de certas formas. Amigos que decepcionam paixões que acabam e outras que começam sem pedir permissão acabam deixando o outro lado do espelho prestes a quebrar. É nessa hora que nossa outra face precisa levantar a cabeça e fazer alguma coisa, porque ninguém mais vai fazer tão bem quanto você essas coisas que passam o tempo todo na sua cabeça, mas se achar que não deve, então aproveite o outro lado do espelho e fuja, mas não esqueça que precisa voltar.
De Alexandre Widomski
Meu nome é Blanche DuBois
Disseram-me que eu tomasse um Bonde Chamado Desejo, depois passasse para outro chamado Cemitério, andasse seis quarteirões e desceria nos Campos Elisíos.
Você é tudo que eu tenho no mundo, e você não está contente em me ver. Não, não. Um é o limite. Eu vou tomar só mais um golinho, a saidera. Ai vou guardar a garrafa para não sentir mais a tentação.
Eu quero ficar perto de você, eu preciso ficar com alguém, eu não posso ficar só. Por que como você deve ter notado, eu não estou muito bem. Não estou lhe dizendo isso como uma censura, mas todo o peso caiu nas minhas costas. Não, não. Eu raramente toco em bebida.
Aqui estou eu, saindo de um banho quente e perfumado, me sentindo completamente outra pessoa. Muito bem, vamos falar sem rodeios. Estou pronto para responder todas as perguntas. Não tenho nada a esconder. Cartas na mesa, isso me convém. Quando se trata de algo importante eu sempre digo a verdade - e a verdade é a seguninte: eu nunca enganei ninguém, nem mesmo o senhor. Os cegos conduzem os cegos.
Acho que a tristeza conduz a sinceridade. A pouca sinceridade que há no mundo pertence as pessoas que passaram por alguma tristeza. Desculpe-me! Minha língua está pesada. Não estou habituado a beber mais de uma dose. Duas são o limite e... três! Essa noite eu bebi três.
Eu preciso agora de muita bondade.
Você está falando é sobre desejo brutal... apenas isso... Desejo!... o nome do bonde que me trouxe até aqui. Vocês está me odiando por dizer isso, não está?
Você não gosta dessas longas tardes chuvosas, quando uma hora não é apenas uma hora, mas um pedacinho de eternidade caindo-lhe nas mãos... e quem sabe o que fazer com ele?
Esse bonde chamado Desejo ainda anda por aí, gastando os trilhos a estas horas?
Eu simplismente não conseguia me animar. Só isso. Acho que nunca tentei ficar tão alegre, e acabei estragando tudo. Eu estava apenas obedecendo à lei da natureza.
Mas, um banho quente e um bom copo de bebida gelada sempre me dão uma perspectiva otimista da vida.
Eu gosto da escuridão, a escuridão me conforta. Deve haver um significado obscuro em tudo isso.
Não quero relaismo. Eu quero magia. Sim, magia! É o que tento dar as pessoas. Não digo a verdade, digo o que deveria ser verdade. Por dentro nunca, eu nunca menti com o meu coração.
O oposto da morte é o desejo.
Chego a sentir o cheiro do mar. O resto da minha vida vou viver no mar. E quando morrer, morrerei no mar.
Seja o senhor quem for... eu sempre dependi da bondade de estranhos...
Fragmentos de "Um Bonde Chamado Desejo" de Tennessee Willians
Pablo Damian
Você é tudo que eu tenho no mundo, e você não está contente em me ver. Não, não. Um é o limite. Eu vou tomar só mais um golinho, a saidera. Ai vou guardar a garrafa para não sentir mais a tentação.
Eu quero ficar perto de você, eu preciso ficar com alguém, eu não posso ficar só. Por que como você deve ter notado, eu não estou muito bem. Não estou lhe dizendo isso como uma censura, mas todo o peso caiu nas minhas costas. Não, não. Eu raramente toco em bebida.
Aqui estou eu, saindo de um banho quente e perfumado, me sentindo completamente outra pessoa. Muito bem, vamos falar sem rodeios. Estou pronto para responder todas as perguntas. Não tenho nada a esconder. Cartas na mesa, isso me convém. Quando se trata de algo importante eu sempre digo a verdade - e a verdade é a seguninte: eu nunca enganei ninguém, nem mesmo o senhor. Os cegos conduzem os cegos.
Acho que a tristeza conduz a sinceridade. A pouca sinceridade que há no mundo pertence as pessoas que passaram por alguma tristeza. Desculpe-me! Minha língua está pesada. Não estou habituado a beber mais de uma dose. Duas são o limite e... três! Essa noite eu bebi três.
Eu preciso agora de muita bondade.
Você está falando é sobre desejo brutal... apenas isso... Desejo!... o nome do bonde que me trouxe até aqui. Vocês está me odiando por dizer isso, não está?
Você não gosta dessas longas tardes chuvosas, quando uma hora não é apenas uma hora, mas um pedacinho de eternidade caindo-lhe nas mãos... e quem sabe o que fazer com ele?
Esse bonde chamado Desejo ainda anda por aí, gastando os trilhos a estas horas?
Eu simplismente não conseguia me animar. Só isso. Acho que nunca tentei ficar tão alegre, e acabei estragando tudo. Eu estava apenas obedecendo à lei da natureza.
Mas, um banho quente e um bom copo de bebida gelada sempre me dão uma perspectiva otimista da vida.
Eu gosto da escuridão, a escuridão me conforta. Deve haver um significado obscuro em tudo isso.
Não quero relaismo. Eu quero magia. Sim, magia! É o que tento dar as pessoas. Não digo a verdade, digo o que deveria ser verdade. Por dentro nunca, eu nunca menti com o meu coração.
O oposto da morte é o desejo.
Chego a sentir o cheiro do mar. O resto da minha vida vou viver no mar. E quando morrer, morrerei no mar.
Seja o senhor quem for... eu sempre dependi da bondade de estranhos...
Fragmentos de "Um Bonde Chamado Desejo" de Tennessee Willians
Pablo Damian
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
*Encontro de um cotidiano patéticamente romântico*
Havia estado pelo resto da tarde com aquela queimação no estômago. Tinha a certeza que nenhum homem prestava, que odiava todos. Mesmo que naquele instante pensava em trepar com o primeiro que aparecesse na sua frente. Era mais por honra que por prazer.
"Maldito Carlos Augusto!" pensava enquanto esperava o sinal abrir. "E ainda chove e eu vestida de branco. Que ódio do mundo". Chovia mas estava muito calor, muito abafado. E ainda mais após o que ela viu, o ar era denso e difícil de passar pelas suas narinas. O sinal continuava vermelho, assim como a cor do lençol de cetim que estava na cama hoje pela manhã. O lençol que usamos pela primeira vez, na nossa primeira noite de casados. E ele ainda dizia que o fato de transar só depois do casamento deixava ele louco. E ela sabia como fazer, ela era uma mulher caralho! Mas perdeu em meio aos inpumeros processos de seus escritório que tomavam as suas noites.
Mas mesmo assim, ele não tinha o direito. Ainda mais no lençol da nossa primeira noite. Os homens são todos iguais, insensíveis, nojentos e não se lembram de detalhes. Datas, momentos, nada, tudo passa desapercebido. E ainda mais com uma menina. Uma putinha adolescente, dessas que seduzem homens mais velhos casados nas piscinas do condomínio e se mostram passivas e imaturas, e eles adoram exercer o seu papel de maxo dominador, e ter a sensação de ser o primeiro, a abrir caminhos. Essas putinhas... Devem dar mais que muita mulher de 30 anos. Homem é tudo burro. "Ahhh maldito carlos Augusto, maldita putinha do 508, maldito lençol de cetim, maldito sinal!".
E ela ainda, coitada, havia se preocupado em fazer uma surpresa. Achava seu marido um tanto carente nesses últimos dias. E ela, atolada em trabalho, sem poder ao menos dar atenção para ele. "E eu ainda me sentia culpada!".
Preparou tudo no dia anterior. Saiu mais cedo do escritório, cancelou 3 clientes. 3 clientes importantes, mas nada poderia ser mais importante que o homem que ela amava. Comprou vinho francês, como daquela primeira vez que ele a levou em um restaurante. "Vinho francês tem sabor eterno, como o de um amor verdadeiro". Subiu o elevador, abriu a porta do apartamento devagar. Ninguém na sala deserta. Um barulho no quarto. Ela vai calmamente para não ser notada. Queria fazer uma surpresa, e pelo espelho ela vê. A putinha que deve ter no máximo 15 anos, chupando seu marido, que enloquecido segurava a cabeça da pequena ninfa e metia, metia, metia, até ela perder o fôlego. E ela ria, gostava a putinha. Então ela fica de quatro e pede: "Faz gostoso como tu faz com a tiazona que tu é casado". "Tiazona?"... Tudo bem, era uma menina, ele um homem... Homem tem dessas coisas. São todos uns otários sexuados. Mas tiazona?! Aquilo tinha doido, foi como uma facada no estomago, com várias estocadas ardidas, enquanto o seu marido estocava na vadiazinha do 508. Saiu dali transtornada. Xingou todos seus estagiários. Fumou compusivamente, a tarde toda. Pensou em comprar uma arma. Pensou em fazer uma plástica, mas ela só tinha 28 anos. Nem 30! E o que uma putinha vem dizer que ela era tiazona? Tiazona, tiazona, tiazona... ecoou no seu ouvido a tarde toda.
Ao sair do escritório, um garotinho pediu dinheiro: "Tia, dinheiro pra mim comê". Sem pensar ela para e olha o projeto de gente, sujo e ranhento: "Tia é a puta que te pariu e que tá se encaxanssando e dando o rabo numa hora dessas. Tia é a puta que te pariu. Que tu, o Carlos Alberto, a putinha do 508, a tua mãe morram todos de fome!". "Ela morreu de fome". Seu estômago já estava retalhado e sentiu mais uma estocada. Do estômago ao peito. Tirou 10 reais da carteira, botou novamente. Tirou 50 e deu ao menino. Riu encomodada "Desculpa, eu não tenho troco, fica com 50". O menino riu. "Brigado tia". Ela respirou fundo e seguiu até o seu carro.
Essa cidade, cheia, abafada, chovendo. E eu voltando pro apartamento. Pra minha cama, com o meu lençol vermelho. Com o cheiro da xoxotinha quase virginal daquela putinha. A vadiazinha ainda ficava de 4. Só tive coragem de dar de 4, quando ele me pediu, um ano depois de casados. Mas ele nunca reclamou, até elogiava. Dizia que eu era uma vadia na cama, e aquilo era bom. mas por que outra meu Deus? E logo na minha cama, no meu lençol vermelho. E ainda uma putinha que não sabe nada da vida!
O Carlos Alberto, a putinha, a cliente que havia cortado o bico do seio da amante do marido, o mendiguinho, o trânsito parado. E aquelas estocadas no estômago. E ela ainda indo pra casa. Era preciso fazer alguma coisa. Beber, beber talvez seja a solução.
Era um bar vazio, muito charmoso. Escuro, perfeito. Assim ninguém veria a sua cara de tiazona. Nem de mulher trocada por uma putinha de 15 anos. Sentou em uma mesa perto da porta. O garçom se aproxima, ela não quer ninguém por perto e logo diz: "Um vinho branco francês, o mais caro que tu tiver, e um maço de Marlboro Light". O garçom volto logo após. Serve e ela bebe num gole só. Ele serve outra taça, ela ascende um cigarro. O som de um piano e uma voz cantando em francês ecoa no ambiente. O celular toca. Carlos Alberto. Ela não atende. Toca de novo. Ela não atende.Ela bebe. A música empreguina no vinho e ela tem a sensação de estar bebendo a música. Ela começa a ouvir de novo na sua cabeça "tiazona"... O telefone toca de novo. Ela não atende. Um homem que estava sentado no bar pegunta: "Não vai atender?". "Não pretendo, te incomoda?". "Não, tu deve ter seus motivos. Quer conversar?". "E por que eu deveria?". "Eu quero". Ele levanta-se e senta na mesa junto dela. Ele era bastante bonito. Bastante mesmo. Era o destino conspirando a favor dela pela primeira vez depois de um dia maldito. "Vinho francês?" perguntou ele. "Sim", ela respondeu. "Gosto eterno como um amor verdadeiro". Ela sorri. Realmente, era o destino a favor dela. O homem pra quem ela precisava dar. Uma mulher realizada, é uma mulher vingada.
"Desculpa, eu nem me apresentei. Francisco". Pensou rápido em um nome, um nome que deixasse ele de pau duro. Regina, virginal demais. Camila, puro demais. Maria, comum demais, Shaiane, Rochelly, vulgar e puta demais. Decidiu por Amanda, que é um beijo nos próprios lábios quando se pronuncia. E disse: "Amanda" e bebeu um gole de vinho.
Conversaram, beberam. Ela por ter sido traido com uma putinha de 15 anos no máximo, e ele por ter lembrado de uma pessoa. Na verdade ele não lembrou, nunca esqueceu, "é diferente", dizia ele. Ela havia ficado curiosa, com a história. Ele contava que fazia anos. Ela tentava extrair a história de todas as formas, mais discretas possíveis. Era uma advogada sabia fazer isso muito bem, aliando a sua curiosidade feminina, estava nas mãos com todos os igredientes. Ele decidiu contar.
"Foi no ensino médio, há muito tempo atrás. Uma experiência única. O único amor que eu tive. Erámos melhores amigos"... Ele era gay, tinha algum defeito... "Não, antes que você me pergunte, eu não sou gay. Foi uma vez só, a única, e especial. Então, éramos bons amigos, melhores. Acabamos nos envolvendo. Então a amizade acabou e nosso amor se tornou impossível. Por que eu o amava, tanto como ele me amava, mas eu não queria aquilo pra minha vida naquela época. Meus amigos, minha família. E eu machuquei demais essa pessoa. Eu não podia dizer o que ela precisava escutar, que era que eu não a amava, por que não era verdade, e a gente não deve mentor quando ama". "Mas você ainda gosta dele?". "Muito...". "Então?". "Um amor uma vez impossível, é pra sempre impossível. É como esse vinho francês, gom um gosto eterno, mas impossível de guardar para sempre na boca". Houve um momento de silêncio. Ela chorou pela primeira vez no dia. Depois de tudo, foi a primeira vez que chorou no dia. O peito aliviava com as lágrimas. Ela estava envolvida. Chorava por outro homem, na verdade por outros dois, já era uma traição, dupla. "E ele?"... "Ele? Quando a gente tava junto, ele sempre dizia que iria montar uma casinha, uma cabana, em uma praia deserta, e a gente ia se amar, com o por do sol de um dia cinzento, com apenas o barulho do mar, e os Beatles tocando. Ele realizou o nosso sonho, sozinho. Foi até a praia, até a cabana. Colocou os Beatles no som, e tomou uma última garrafa de vinho francês, escrevendo numa carta "assim como você Francisco, o vinho francês. Eterno". Foi a última notícia que tive dele. Ele hoje deve estar no mar, junto com os peixes. Ele sempre dizia que iria morrer no mar, onde tudo começou. Que a vida é como a espuma do mar, por isso a gente deve mergulhar".
Ela chorava, e sentia pena da putinha do 508, pois ela nunca iria entender, ela não era mulher, ela era uma menina. Ela foi ao banheiro e quando voltou havia apenas um bilhete na mesa.
"O amor é um punhal de dois gumes: Não amar é sofrer, amar é sofrer mais".
Chegou em casa, o marido jah dormia sobre os leçõis veirmelhos de cetim. Tirou a roupa e acordou o marido. "De quatro, como com a putinha do 508".
Pablo Damian
"Maldito Carlos Augusto!" pensava enquanto esperava o sinal abrir. "E ainda chove e eu vestida de branco. Que ódio do mundo". Chovia mas estava muito calor, muito abafado. E ainda mais após o que ela viu, o ar era denso e difícil de passar pelas suas narinas. O sinal continuava vermelho, assim como a cor do lençol de cetim que estava na cama hoje pela manhã. O lençol que usamos pela primeira vez, na nossa primeira noite de casados. E ele ainda dizia que o fato de transar só depois do casamento deixava ele louco. E ela sabia como fazer, ela era uma mulher caralho! Mas perdeu em meio aos inpumeros processos de seus escritório que tomavam as suas noites.
Mas mesmo assim, ele não tinha o direito. Ainda mais no lençol da nossa primeira noite. Os homens são todos iguais, insensíveis, nojentos e não se lembram de detalhes. Datas, momentos, nada, tudo passa desapercebido. E ainda mais com uma menina. Uma putinha adolescente, dessas que seduzem homens mais velhos casados nas piscinas do condomínio e se mostram passivas e imaturas, e eles adoram exercer o seu papel de maxo dominador, e ter a sensação de ser o primeiro, a abrir caminhos. Essas putinhas... Devem dar mais que muita mulher de 30 anos. Homem é tudo burro. "Ahhh maldito carlos Augusto, maldita putinha do 508, maldito lençol de cetim, maldito sinal!".
E ela ainda, coitada, havia se preocupado em fazer uma surpresa. Achava seu marido um tanto carente nesses últimos dias. E ela, atolada em trabalho, sem poder ao menos dar atenção para ele. "E eu ainda me sentia culpada!".
Preparou tudo no dia anterior. Saiu mais cedo do escritório, cancelou 3 clientes. 3 clientes importantes, mas nada poderia ser mais importante que o homem que ela amava. Comprou vinho francês, como daquela primeira vez que ele a levou em um restaurante. "Vinho francês tem sabor eterno, como o de um amor verdadeiro". Subiu o elevador, abriu a porta do apartamento devagar. Ninguém na sala deserta. Um barulho no quarto. Ela vai calmamente para não ser notada. Queria fazer uma surpresa, e pelo espelho ela vê. A putinha que deve ter no máximo 15 anos, chupando seu marido, que enloquecido segurava a cabeça da pequena ninfa e metia, metia, metia, até ela perder o fôlego. E ela ria, gostava a putinha. Então ela fica de quatro e pede: "Faz gostoso como tu faz com a tiazona que tu é casado". "Tiazona?"... Tudo bem, era uma menina, ele um homem... Homem tem dessas coisas. São todos uns otários sexuados. Mas tiazona?! Aquilo tinha doido, foi como uma facada no estomago, com várias estocadas ardidas, enquanto o seu marido estocava na vadiazinha do 508. Saiu dali transtornada. Xingou todos seus estagiários. Fumou compusivamente, a tarde toda. Pensou em comprar uma arma. Pensou em fazer uma plástica, mas ela só tinha 28 anos. Nem 30! E o que uma putinha vem dizer que ela era tiazona? Tiazona, tiazona, tiazona... ecoou no seu ouvido a tarde toda.
Ao sair do escritório, um garotinho pediu dinheiro: "Tia, dinheiro pra mim comê". Sem pensar ela para e olha o projeto de gente, sujo e ranhento: "Tia é a puta que te pariu e que tá se encaxanssando e dando o rabo numa hora dessas. Tia é a puta que te pariu. Que tu, o Carlos Alberto, a putinha do 508, a tua mãe morram todos de fome!". "Ela morreu de fome". Seu estômago já estava retalhado e sentiu mais uma estocada. Do estômago ao peito. Tirou 10 reais da carteira, botou novamente. Tirou 50 e deu ao menino. Riu encomodada "Desculpa, eu não tenho troco, fica com 50". O menino riu. "Brigado tia". Ela respirou fundo e seguiu até o seu carro.
Essa cidade, cheia, abafada, chovendo. E eu voltando pro apartamento. Pra minha cama, com o meu lençol vermelho. Com o cheiro da xoxotinha quase virginal daquela putinha. A vadiazinha ainda ficava de 4. Só tive coragem de dar de 4, quando ele me pediu, um ano depois de casados. Mas ele nunca reclamou, até elogiava. Dizia que eu era uma vadia na cama, e aquilo era bom. mas por que outra meu Deus? E logo na minha cama, no meu lençol vermelho. E ainda uma putinha que não sabe nada da vida!
O Carlos Alberto, a putinha, a cliente que havia cortado o bico do seio da amante do marido, o mendiguinho, o trânsito parado. E aquelas estocadas no estômago. E ela ainda indo pra casa. Era preciso fazer alguma coisa. Beber, beber talvez seja a solução.
Era um bar vazio, muito charmoso. Escuro, perfeito. Assim ninguém veria a sua cara de tiazona. Nem de mulher trocada por uma putinha de 15 anos. Sentou em uma mesa perto da porta. O garçom se aproxima, ela não quer ninguém por perto e logo diz: "Um vinho branco francês, o mais caro que tu tiver, e um maço de Marlboro Light". O garçom volto logo após. Serve e ela bebe num gole só. Ele serve outra taça, ela ascende um cigarro. O som de um piano e uma voz cantando em francês ecoa no ambiente. O celular toca. Carlos Alberto. Ela não atende. Toca de novo. Ela não atende.Ela bebe. A música empreguina no vinho e ela tem a sensação de estar bebendo a música. Ela começa a ouvir de novo na sua cabeça "tiazona"... O telefone toca de novo. Ela não atende. Um homem que estava sentado no bar pegunta: "Não vai atender?". "Não pretendo, te incomoda?". "Não, tu deve ter seus motivos. Quer conversar?". "E por que eu deveria?". "Eu quero". Ele levanta-se e senta na mesa junto dela. Ele era bastante bonito. Bastante mesmo. Era o destino conspirando a favor dela pela primeira vez depois de um dia maldito. "Vinho francês?" perguntou ele. "Sim", ela respondeu. "Gosto eterno como um amor verdadeiro". Ela sorri. Realmente, era o destino a favor dela. O homem pra quem ela precisava dar. Uma mulher realizada, é uma mulher vingada.
"Desculpa, eu nem me apresentei. Francisco". Pensou rápido em um nome, um nome que deixasse ele de pau duro. Regina, virginal demais. Camila, puro demais. Maria, comum demais, Shaiane, Rochelly, vulgar e puta demais. Decidiu por Amanda, que é um beijo nos próprios lábios quando se pronuncia. E disse: "Amanda" e bebeu um gole de vinho.
Conversaram, beberam. Ela por ter sido traido com uma putinha de 15 anos no máximo, e ele por ter lembrado de uma pessoa. Na verdade ele não lembrou, nunca esqueceu, "é diferente", dizia ele. Ela havia ficado curiosa, com a história. Ele contava que fazia anos. Ela tentava extrair a história de todas as formas, mais discretas possíveis. Era uma advogada sabia fazer isso muito bem, aliando a sua curiosidade feminina, estava nas mãos com todos os igredientes. Ele decidiu contar.
"Foi no ensino médio, há muito tempo atrás. Uma experiência única. O único amor que eu tive. Erámos melhores amigos"... Ele era gay, tinha algum defeito... "Não, antes que você me pergunte, eu não sou gay. Foi uma vez só, a única, e especial. Então, éramos bons amigos, melhores. Acabamos nos envolvendo. Então a amizade acabou e nosso amor se tornou impossível. Por que eu o amava, tanto como ele me amava, mas eu não queria aquilo pra minha vida naquela época. Meus amigos, minha família. E eu machuquei demais essa pessoa. Eu não podia dizer o que ela precisava escutar, que era que eu não a amava, por que não era verdade, e a gente não deve mentor quando ama". "Mas você ainda gosta dele?". "Muito...". "Então?". "Um amor uma vez impossível, é pra sempre impossível. É como esse vinho francês, gom um gosto eterno, mas impossível de guardar para sempre na boca". Houve um momento de silêncio. Ela chorou pela primeira vez no dia. Depois de tudo, foi a primeira vez que chorou no dia. O peito aliviava com as lágrimas. Ela estava envolvida. Chorava por outro homem, na verdade por outros dois, já era uma traição, dupla. "E ele?"... "Ele? Quando a gente tava junto, ele sempre dizia que iria montar uma casinha, uma cabana, em uma praia deserta, e a gente ia se amar, com o por do sol de um dia cinzento, com apenas o barulho do mar, e os Beatles tocando. Ele realizou o nosso sonho, sozinho. Foi até a praia, até a cabana. Colocou os Beatles no som, e tomou uma última garrafa de vinho francês, escrevendo numa carta "assim como você Francisco, o vinho francês. Eterno". Foi a última notícia que tive dele. Ele hoje deve estar no mar, junto com os peixes. Ele sempre dizia que iria morrer no mar, onde tudo começou. Que a vida é como a espuma do mar, por isso a gente deve mergulhar".
Ela chorava, e sentia pena da putinha do 508, pois ela nunca iria entender, ela não era mulher, ela era uma menina. Ela foi ao banheiro e quando voltou havia apenas um bilhete na mesa.
"O amor é um punhal de dois gumes: Não amar é sofrer, amar é sofrer mais".
Chegou em casa, o marido jah dormia sobre os leçõis veirmelhos de cetim. Tirou a roupa e acordou o marido. "De quatro, como com a putinha do 508".
Pablo Damian
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