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sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma Guerreira

O sangue escorria entre meus dedos e a faca no canto da sala ainda mostrava exatamente a cena do crime.
Foi tudo muito rápido naquela manhã. Acordei cedo, como fazia nos últimos cinco anos desde que entrei na Lethos para trabalhar com as embalagens da revista, fui até o café da esquina para tomar meu capuccino e seguir para empresa, as coisas haviam mudado desde que cheguei a gerência.
Sentia-me seguida, aquela sensação estava me irritando. Olhava pra trás e sempre era aquele sujeitinho sujo e mal vestido que estava perto de mim, de certo ângulo ele era até bonito, mas sujo!
Cheguei na Lethos e fui direto pra minha sala no décimo segundo andar, tinha que fechar os últimos detalhes da próxima edição da revista, mas algo me tirou a atenção. Olhei pela janela e aquele sujeitinho imundo me olhava lá de baixo, do outro lado da rua.
Aquilo estava me fazendo mal, precisava tomar uma atitude, chamar a polícia, a cavaleria, o exército... Aquele sujeitinho mão podia continuar me seguindo. Já fazia dias que isso havia começado.
Demorou demais pra chegar a hora do almoço, mas resolvi sair alguns minutos antes pra tentar me acalmar. Foi fato. Coloquei o pé do lado de fora da Lethos e ele já estava de olho em mim. Resolvi ir almoçar no Mon Petit, fazia muitos anos que eu não passava por lá, desde quando voltei da viagem à Paris ainda abalada por deixar uma vida... Esqueça, não quero tocar nesse assunto.
Pelo menos ali dentro eu estava salva... Liguei pro Antônio pra dizer que chegaria mais cedo em casa e quem sabe poderíamos sair e comemorar nosso aniversário de casamento.
Na volta à empresa não encontrei mais com o sujeitinho, meu trabalho até rendeu mais. Foi quando percebi um presente em cima de minha mesa. “Que lindo, Antônio quis me fazer uma surpresa” pensei, mas estava errada, ao abrir a caixa havia um sapatinho azul de lã e um bilhete exatamente assim: Me encontre no café da esquina as 19:00 horas, preciso falar com a senhora. Assunto de teu interesse. Ass: Juan.
Era 18:45 quando sai da Lethos, segui a Avenida da Torre meio reciosa, mas precisava saber do que se tratava aquele bilhete. Cheguei ao café da esquina e quem está a minha espera é aquele sujeitinho imundo. Convida-me pra sentar e diz que precisa falar comigo. Ficamos conversando por mais uma hora, estava assustada com aquela conversa, como pode ter acontecido isso?
Entrei em casa disposta a ter uma conversa séria com Antônio, agora algumas coisas iam precisar mudar, a verdade teria de vir a tona. Nos sentamos no sofá e comecei a contar da viagem que eu havia feito há vinte anos. “Meu bem, eu tinha apenas dezessete anos quando ganhei uma viagem à Paris. Fui fazer intercâmbio mas acabei passando quase um ano. Conheci Pierre e nos apaixonamos, acabei engravidando e depois de longos nove meses nosso filho nasceu. Lindo e forte! A responsabilidade de mãe começou a pesar sobre mim, eu era muito jovem e numa noite resolvi fugir e voltar para o Brasil. Deixei apenas um bilhete dizendo que Pierre cuidasse de nosso filho e que nunca mais me procurasse.”
Há dias um sujeitinho vem me seguindo e hoje nos encontramos para conversar. Ele é meu filho, aquele que abandonei há vinte anos. Apesar de tudo que temos, tudo que passei, quero ter a oportunidade de estar com meu filho Juan.
Antônio meio atordoado se levanta e diz que não aceita, que vai embora e ponto final. Não sabia o que fazer, era um pedaço de mim contra o homem que esteve ao meu lado nos últimos anos. Corri para meu quarto e me tranquei. Aquela situação parecia que não ia se resolver assim tão rápido. Foi quando escutei o barulho...
Na sala, ali mesmo, perto do sofá, estava Antônio e Juan. No chão, cobertos de sangue e quase perto da porta Alicia, minha filha, com a faca na mão. “Mamãe se não íamos viver em paz com o papai e esse seu filho, que fosse só nós duas, mas errei.”. Exatamente as ultimas palavras que ouvi de minha doce Alicia, com a faca se matou, se condenando pelos crimes que tinha cometido.
Hoje estou presa nesse hospital, me chama de louca, mas agora você entende... Sou apenas uma mãe, uma mulher... A guerreira que perdeu a razão de viver. Adeus!

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